Preciosidade de vinícola em uma mina de Ametistas! PARTE 1

"Na mitologia grega, Ametista seria o nome de uma ninfa que, para ser protegida do assédio de Dioniso, (Baco, na versão romana), foi transformada pela deusa da castidade num cristal transparente. Baco então nada mais podia fazer, a não ser mergulhá-la no vinho - de onde teria vindo sua coloração arroxeada."



(Pia Batismal da Igreja de Ametista do Sul/RS)

Adoro mineração, geologia, conhecer mais sobre solos, pedras. Gosto tanto do assunto que já estive por duas vezes visitando a Mina "El Teniente" / Sewell, em Rancágua, no Chile (a maior mina de cobre subterrânea do mundo).







(fotos das visitas realizadas em 2010!)

Na adolescência, fiz alguns passeios "de mochila" pelo interior de Minas Gerais, indo conhecer garimpos na região de Mariana e Ouro Preto... belas épocas!

Finalizando o material do Diagnóstico do Enoturismo Brasileiro, chegamos a região do Alto Uruguai. E lá, além do projeto Antônio Dias, em Três Palmeiras, e as vinícolas do entorno de Erechim (que merecem mais estudo!), chega a informação sobre um projeto único (a nível mundial - se alguém conhecer outro peço que avisem imediatamente!): envelhecer os vinhos nas galerias de uma antiga mina de Ametistas! Óbvio, contei os dias e aguardei a oportunidade para conhecer.

Então, neste final de semana, a curiosidade, paixão e a necessidade de entender este projeto me fizeram pegar 490 km de estrada e ir até Ametista do Sul / RS. Localizada no norte do Rio Grande do Sul, quase na divisa com Santa Catarina, está próximo a Frederico Westhphalen, Iraí, Nonoai.


No caminho, aldeias indígenas, muitas. A margem de estradas, fica visível a pobreza e abandono que se encontram os nossos índios. O turismo planejado poderia ser uma alternativa de renda e permanência dos mesmos nas suas comunidades de origem, não como miseráveis "camelôs" (como andam pelas grandes cidades), mas sim através da cultura, dos hábitos, do resgate, da convivência. Um longo, necessário e urgente debate (com posterior ação).

(Centro cultural Kaingang, no acesso a Planalto/RS)

Sobre Ametista do Sul, seguem informações gerais, retiradas da Circular Técnica da Embrapa 106:
(disponível: http://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/896666/6/circular106.pdf)


A ocupação das terras do norte do Rio Grande do Sul pelos descendentes de europeus e caboclos ocorreu com o grande avanço da pecuária pelos campos nativos do planalto. Nos limites do planalto, a região dissecada pelo rio Uruguai e seus afluentes era coberta por uma floresta densa. Sem muito interesse pelos fazendeiros, a região foi colonizada a partir do início do século passado por colonos descendente de europeus, alemães, italianos e caboclos. 

O município de Ametista do Sul teve sua origem na década de 1940 por ser uma região de difícil acesso. Dada a superfície de seu território totalmente irregular, e na época ter toda essa superfície coberta por uma mata muito fechada, quase intransponível, serviu para vários criminosos, fugitivos se refugiarem ali. Aos poucos foram aparecendo as picadas no meio desta floresta, picadas que a ligariam a vários outros povoados, como Iraì, Planalto, Frederico Westphalen e Rodeio Bonito.

Nesta época foram descobertas as pedras preciosas, e com elas começaram a chegar pessoas, garimpeiros, curiosos entre eles alguns alemães. Em meados de 1950 já se instalava um pequeno comércio com muitas famílias vindas das terras velhas, como se chamava a região de Caxias do Sul, para trabalhar a terra muito fértil. 

Hoje, o município de Ametista do Sul apresenta pequenas propriedades que se fragmentaram ao longo do tempo com uma agricultura de pequenos produtores nas áreas de mata com solos muito férteis, íngremes, com rochas e seus fragmentos. Poucas atividades além dos cultivos de sobrevivência, expandem-se em uma economia que depende, além dos produtos primários das propriedades (cereais, leite, mel, criação de pequenos animais, etc), da extração de pedras preciosas (ágatas e ametistas).

*Igreja de Ametista do Sul, cujo interior é todo forrado de pedras e obras de arte!

Nosso contato era Silvio Pôncio, um dos proprietários da Vinícola Ametista. Um jovem muito entusiasta do município, da sua terra: foi vereador com 21 anos, em seguida prefeito (hoje vice-prefeito). Sua família tem tradição na área de mineração.

(Silvio Pôncio em uma das galerias da Vinícola Ametista)

Nosso encontro foi no centro da cidade, onde conversamos sobre a origem de tudo, a idéia de plantar uva na região. Tudo começa em meados de 2000. A região sobre muito com êxodo rural, empobrecimento do homem no campo: era necessário buscar alternativas de renda. Com a base de colonização italiana, a sugestão dos próprios agricultores foi o plantio de uva. Buscaram-se parcerias com empresas da serra gaúcha e os parreirais foram implantados, tanto de uvas finas como variedades americanas.

Hoje, muitas das parcerias se perderam ou estão sendo revistas. Os parreirais já estavam produzindo: com as secas das últimas safras os resultados para a uva tem sido muito positivos. Então, Silvio e seus irmãos tiveram a idéia de unir o vinho à mineração. Adquiriram a área de terras onde antigamente sua família tinha contratos para extração das ametistas e construíram a moderna e tecnológica vinícola na área externa. As galerias, que ainda preservam geodos nas suas paredes, deram lugar a um magnífico e ambicioso projeto de envelhecimento de vinhos.

Antes de seguir a visita a vinícola, era obrigatório conhecer a igreja forrada de Ametistas.
Uma celebração, homenagem, das mãos calejadas dos fiéis que muitas vezes tem que contar com a sorte para preservar a própria vida nas minas. Uma verdadeira obra de arte, a Igreja é cravejada de pedras. Vale a visita!







Era a hora de seguir para a vinícola...

(segue na próxima postagem...)

Comentários

Anônimo disse…
Uma pérola de documentário!
Mais uma vez revela o quanto temos à conhecer, entender e aprender, seja no Brasil, e/ou mundo, em todos os aspectos: contemporâneo, histórico e principalmente humano!
Adorei a colocação dos dois países: Brasil e Chile, os dois humanamente fantásticos e preciosícimos!

Ingrid
Diego Juchnievski disse…
Quando tiveres oportunidade, visite mais a fundo essa região. É muito importante a tua opinião....

Você passou por Planalto e lá também tem várias vinícolas. Tudo conforme a região: vinícolas pequenas e viticultura familiar.

Além de Amestista, Planalto e Trindade, podemos citar Frederico Westphalen, e Sarandi...

Já existe uma associação, para ajudar a divulgar a região, tanto no seu aspecto cultural (Indígenas, hidrelétrica em Alpestre, pedras ametista - em toda a região, águas termais, em Iraí e Vicente Dutra, e a parte dos vinho do Alto Uruguai).

Espero que tenha achado Planalto (minha terra natal) uma baita cidade, em pleno desenvolvimento hehehe

Diego Juchnievski - Enólogo
Olá amigos, obrigada pelo carinho das mensagens! Eu estou encantada com a potencialidade da região, autenticidade e, principalmente, preocupação do Silvio Pôncio em desenvolver novas oportunidades na cidade. Um abraço a todos!

Postagens mais visitadas deste blog

Dica da Semana | Tufarello Nero di Troia IGP Puglia

A arte de fazer um grande queijo | Visita a Raul Anselmo Randon | Vacaria

Peterlongo | Historia em imagens